Chile importa empreendedores digitais
Governo oferece US$ 40 mil durante seis meses a empresas tecnológicas e de serviços de alto valor agregado Pretensão do programa de incentivo é fazer do país andino o “polo de conexão” do mundo com a América Latina NATÁLIA PAIVA DA ENVIADA ESPECIAL A SANTIAGO O anuário oficial da arquitetura chilena é escrito em três idiomas: espanhol, inglês e… chinês. Indicador claro de que a mais festejada arquitetura contemporânea do continente busca expandir seu mercado.
ENVIADA ESPECIAL A SANTIAGO
A proposta do funcionário do governo chileno era irresistível: montar um negócio em Santiago em um processo sem burocracia e com apoio de US$ 40 mil (R$ 69 mil) por seis meses.
Além disso, teria uma rede de talentos locais à disposição e uma ponte com fundos de investimento.
Quando o israelense Amit Aharoni ouviu a sugestão de um assessor do Ministério da Economia do Chile -que fazia uma espécie de “road show” por universidades americanas-, não titubeou.
Aceitou trocar os bancos da pós-graduação na Universidade Stanford por um escritório no centro de Santiago. Com ambiente de negócios de país asiático e nível educacional acima da média latino-americana, o Chile desenhou sua estratégia de crescimento dos próximos anos.
Quer ser um polo de “start-ups” (empresas iniciantes que apostam em novas tecnologias) e exportação de serviços de alto valor agregado (leia nesta pág.). Um “Vale do Silício” latino.
Lançado pelo governo na semana passada, o programa Start-Up Chile quer atrair até outubro 25 projetos com foco on-line -o de Aharoni, 30, em parceria com o francês Nicolas Meunie, 25, é o de um portal de e-commerce de serviços de turismo.
A meta do programa é desenvolver mil projetos do tipo em todo o governo do também empreendedor Sebastián Piñera (2010-2014).
“O empreendedor em fase inicial tem um problema do tipo “o ovo e a galinha’: precisa de dinheiro pra começar a produzir, mas precisa do produto para atrair investidores.
Ir para o Chile resolve isso”, afirma Aharoni já em Santiago, para onde se mudou dois meses após ouvir a proposta.
INOVA CHILE
“Nossa política estratégica como país é converter o Chile no lugar de inovação da região”, afirma Nicolas Shea, assessor do governo para essa área.
Shea tenta amainar o tom ambicioso do programa e diz que o intento não é ser uma “filial” do Vale do Silício (nos EUA), mas ser “o polo de conexão” do mundo com a América Latina.
O objetivo de atrair “talentos” de outros países, diz ele, é fazer com que potenciais empreendedores de sucesso no futuro constituam no Chile, desde já, o centro de desenvolvimento de suas futuras empresas, e que estas já nasçam com capital chileno.
Na política pró-inovação chilena, a criação em 2005 do InnovaChile, braço da Corfo (agência de desenvolvimento) para estimular inovação, é um dos destaques recentes.
O outro são os programas específicos com foco em pessoal, como o de inserção de profissional com doutorado em empresas privadas (o governo subsidia, por três anos, parte do salário).
FUGA REVERSA
“Eles estão obviamente tentando reverter a “fuga de cérebros”, ao atrair gente com alta qualificação para o país.
Mas, se vai funcionar… Bem, alguns países já conseguiram antes”, afirma o analista para a América Latina da EIU (Economist Inteligence Unit) Rodrigo Aguilera.
Em análise conservadora, a consultoria estima que o Chile crescerá 4,8% em 2010 e 5,7% em 2011, ritmo superior ao da América Latina e ao do mundo como um todo, ambos em desaceleração.
“Para crescer 6%, não pode contar apenas com emprego; precisa de investimento em produtos, o que ainda não é tão alto como nas economias asiáticas”, afirma.
Para Aguilera, o desafio está em que, apesar de o nível educacional do Chile ser mais alto que o de seus pares latinos, continua aquém de países pequenos que são referência em inovação, como Cingapura e Coreia do Sul.
País investe nos serviços de alto valor agregado
A China, onde a associação de arquitetos do Chile já tem escritório, é um dos principais alvos.
Como fez com o salmão e o vinho, o país quer tornar referência alguns serviços de alto valor agregado, como arquitetura, engenharia e audiovisual -e diversificar sua pauta de exportações, ainda dominada pelo cobre.
A promoção do setor de serviços (quase 60% do PIB chileno) vem dos anos 90. Mas o foco nos serviços “não tradicionais”, que geram emprego de alto valor agregado, é mais recente.
Até 2015, o governo pretende que a exportação desse tipo de serviço pule de US$ 1 bilhão por ano (9% do total dos serviços exportados, cuja maior parte é de transportes), para US$ 5 bilhões.
As vantagens do Chile, segundo analistas ouvidos pela Folha, são boa formação profissional, ambiente de negócios receptivo, ampla rede de acordos comerciais e incentivos ao investimento.
“Os maiores desafios são reduzir falhas no manejo do inglês, obter certificações e melhorar procedimentos tributários para exportadores”, diz Osvaldo Marinao, chefe do departamento de comércio de serviços da agência de exportações ProChile.
Com expertise em mineração, o setor de engenharia de consulta saltou de exportações de US$ 92 milhões em 2005 para US$ 230 milhões em 2008.
Enquanto no Brasil, com 200 milhões de habitantes, se formam anualmente 30 mil engenheiros, no Chile (cuja população é de 16 milhões) são 8.000.
Os chilenos lançaram oficialmente em agosto a marca “Cinema Chile” -e a ProChile já pensa em outros selos
(Source: www1.folha.uol.com.br)